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segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Um "monstrinho" para levar no bolso


Um dia você acorda e tem a ideia de que um objeto discreto, pequeno, que cabe na palma da mão, pode ser o ideal para usar numa situação do tipo "caso eu precise me defender". Aí você abre o Aliexpress e se encanta por toda sorte de opções. Depois, você conversa com amigos (que não utilizam tais armas, ou que as portam mas não treinam nada) e eles opinam, conforme a impressão que têm de cada espécie de arma, sob uma influência imaginária, induzida por vídeos do YouTube.

Então, você escolhe e compra. Depois sai por aí, todo pimpão, com seu "monstrinho" de bolso, totalmente legal. Sai caminhando firme, na certeza de que se dará bem no caso de uma eventual agressão. Aí começa o engano...

Bom, primeiro, se você não sabe lutar, essas armas não vão ajudar, podendo mesmo "complicar" (imagine só, você levando uma surra com seu próprio artefato). Depois, se você sabe lutar, pode vir a supor que basta empunhar a arma e usar as técnicas aprendidas na arte marcial que você já pratica, pela qual já participou de muitas competições e venceu... Só que isso não é bem assim. Não tratamos de esportes marciais, mas de possíveis confrontos reais. E o que pode parecer uma simples adaptação, na verdade é uma integração, um processo de educação mais profundo.

Como praticantes de artes de combate baseadas (e com forte ênfase) no uso de armas, os estudantes de Kali, Pencak Silat e Krav-magá percebem que, logo que começam a aprender as técnicas com uma determinada arma, uma das coisas que aparece é uma necessidade de ajustes, para não ser atingido pela própria arma e para que ela não migre para as mãos do oponente. Isso é muito comum, pode crer. No Kali, por exemplo, há exercícios aprendidos com bastão, mas que se executados com um facão podem (facilmente) resultar em cortes sérios no estudante que as executa. Logo, os ajustes finos surgem, como uma exigência de refinamento técnico.

Isso se aplica a todas as armas. As pequenas armas contundentes podem acertar você mesmo, especialmente nas áreas de transição de movimentos, como cotovelos, antebraços e mesmo no rosto, pois na aplicação de golpes fluidos uma mão pode "atropelar" a outra, atingindo o outro braço. Além disso, no retorno do movimento, a cabeça pode "estar no caminho". Logo, apesar de muitas técnicas comportarem um "potencial de transferibilidade", isto é de se embasarem na mecânica geral da arte, as peculiaridades da arma demandam ajustes. Exemplo disto é a aptidão das Karambits em ferir a mão viva (desarmada) de quem a empunha e não treina movimentação adequada. Mas, nosso assunto agora são armas pequenas e contundentes...

No campo da aplicação efetiva, outro fator deve ser mantido em mente. Você, dificilmente, derrubará um oponente com um único golpe, daqueles cinematográficos. A ação exigirá agressividade, logo, muitos golpes, sem intervalos, rápidos, potentes e decididos, sem dúvidas ou pausas mentais para avaliar. É tudo ou nada! É sobreviver ou não! Sua capacidade é que estará em jogo e não o suposto poder da pequenina arma, cuja eficácia depende 100% de sua aptidão.

A arma pequena e impactante é apenas uma extensão de seu poder pessoal, de sua capacidade de se movimentar e agir. Uma extensão valiosa, sem dúvida, mas depende de você, mais do que dependeria uma arma de fogo, um bastão, uma faca. Por motivos simples: a luta com apoio de tais armas está mais próxima da realidade do combate desarmado do que da luta com armas que trazem "poderes" em si mesmas, como um projétil, um fio de lâmina, ou a inércia e a massa de um bastão.

A esta altura do texto você pode pensar que o autor está querendo persuadir você a praticar Pekiti Tirsia Kali, Pencak Silat, Krav-magá. E você tem razão ao pensar isto. Tal intenção existe. Mas não à toa. É por causa da natureza dessas artes, voltadas para a dura realidade dos chamados combates aproximados e das ditas "lutas corporais". Porém, não existe a intenção de desvalorizar ou subestimar qualquer arte marcial, de forma alguma. Pelo contrário, se você pratica ou ensina qualquer das artes mais conhecidas do grande público, considere que as nossas sejam um tipo de extensão no aprendizado, como uma "pós graduação", que vai somar e abrir novas possibilidades para o conhecimento aplicado de sua própria arte. Tanto isto é verdade que não faremos "estudos comparados" da abordagem de uso das armas nesta ou naquela arte marcial. Cada qual tem seus aspectos próprios e sua própria expressão. O respeito pelo conhecimento pauta nosso pensamento.

Vamos, então, apresentar algumas armas pequenas e contundentes, comuns em nosso meio...



Dulo-dulo, ou Kubotan, ou "Yawara*" (chalmado, também, "Palm Stick"):

Basicamente é um bastão que ultrapassa um pouquinho só a palma da mão, deixando uma ou duas extremidades de fora. Serve para bater, sob a mesma mecânica que utilizamos com mãos vazias (tapas e martelos). A ponta potencializa os golpes, tornando-os mais efetivos. Serve, também, para controlar os golpes do oponente, puxando e redirecionando seus movimentos. Nos grapplings, na aplicação de uma chave, são ótimos para "aumentar a pressão" e facilitar o controle do adversário.

Talvez sejam as armas que contem com a mais ampla gama de design no gênero. Uma ou duas pontas, materiais variados, formatos elegantes, artísticos e até mesmo inusitados são fáceis de encontrar para esses pequeninos bastões. As populares canetas táticas são exemplos interessantes dessa variação. Canetas feitas em alumínio (no mais das vezes), que discretamente acompanham seus donos.

*Yawara - Temos o máximo de preconceito possível contra essa denominação, graças a uns sujeitos que, há tempos apareceram nos círculos esportivos com uma tal de "arte-marcial-invencível-horrível-superdolorível" chamada "yawara". Bom, deixa pra lá... Pesquise quem quiser...








Soco inglês, ou Knucle Duster, ou Buku Lima:

Infelizmente, arma "marginalizada", mal vista porque é associada a baderneiros, arruaceiros, criadores de encrenca e outros tipos de escória briguenta. Mas não é uma arma ilegal, como muitos imaginam e como muitos querem fazer crer. Tampouco merece ser desprezada, especialmente se você treina Pencak Silat, Pangamut do Pekiti Tirsia Kali ou Panantukan. 

Em geral possuem aquele design "clássico", que já indica sua (única) finalidade. Porém, existem modelos discretos desse conceito de arma, mais dissimulados por designs muito criativos. Podem ser encontrados em vários materiais, como polímeros e madeira, por exemplo.





 É claro que sabemos que é um  tipo de suporte, ou steady cam. Mas, só para não perder a piada: Nem dá pra notar... Deve ser "tático", ou próprio para legítima defesa (já faz o registro)



Monkey fist:

Aquelas bolinhas "bonitinhas", de aço ou chumbo, de tamanhos variados, artisticamente embrulhadas com Paracord... Podem ser portadas como chaveiros e adereços. São como aquelas Maças medievais, porém em miniatura. Servem para golpear. Sua eficácia depende de fatores como densidade, tamanho e peso (massa) da esfera em seu núcleo. Pessoalmente, acho legal, tenho, mas não ponho muita confiança...





Lanternas táticas:

Essas, sim, são armas de "responsa". Além de úteis para iluminar, servem para cegar temporariamente o adversário, desorientando-o e dando oportunidade para evasão, ou para despejar nele uma chuva de pancadas.

Há lanternas para todos os gostos, necessidades e bolsos. Quando digo bolsos, me refiro aos preços, uma vez que grande parte delas é de bolso. Mas as lanternas táticas, por execelência, não costumam ser aquelas facilmente encontradas no Aliexpress, que prometem 200.000.000 de lúmens e 10.000 horas de bateria, por apenas cinco dólares. Não... Você pode até encontrar uma boa, mas dificilmente terá as características de uma lanterna tática propriamente dita. E quais seriam essas características...?

São robustas, sólidas, com potências realmente altas (800, 1000 lúmens ou mais), gastam bateria loucamente (muitas contam com modos econômicos, para uso geral), podem possuir modo estroboscópico, muitas têm bisel (aquela borda para golpear), e muitas são adaptáveis a acessórios para acoplar em armas de fogo.

Quer comprar uma? Procure fabricantes de boa reputação, pesquise os modelos, assista análises no YouTube e prepare o bolso, pois uma lanterna tática de qualidade, mesmo sendo acessível, não é um item dos mais baratos. Existem umas de sessenta dólares e outras que chegam a duzentos, todas muito boas.


Esta aqui toca fogo nas coisas. Flash Torch (Wicked Lasers). Bacana, mas não dá pra levar à sério.





Finalizando, estas são algumas opções no mundo das pequenas armas contundentes. Todas muito interessantes e efetivas. Contudo, se você não treinar (física, técnica e mentalmente) nenhuma delas irá te ajudar a salvar a pele numa encrenca. Pedir a Deus que te proteja, antes de tudo, e treinar, treinar, treinar...



NOTA - Como disse, nesse mundo de pequenas coisas para bater nos outros o que não falta é criatividade. Muitas ideias interessantes, ao lado de bizarrices e "reinvenções da roda". Alguns exemplos abaixo...


O do alto à esquerda parace ter saído de uma sex shop. À esquerda deste um tipo de spinner que não roda, chique, todo brilhoso. Abaixo à esquerda, um tipo híbrido de chave sextavada com alça de caneca. À direita inferior, parecendo uma ferramenta, um "karandulo".  Haja imaginação!

Agora, sim, o texto acabou. 

Obrigado. Até a próxima.

Mabuhay!



















quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Uns canivetes..., umas travas...

Quando se trata de canivetes, um assunto que ocupa tanto o desconhecimento, quanto a esclarecida preferência pessoal é o travamento, responsável pela segurança no uso do artefato e pela usabilidade diante múltiplas aplicações.

Nos tempos do "pica-fumo" do vovô a segurança era zero, resumida na tensão de mola que mantinha a lâmina firme, quando aberta ou fechada. Um simples esbarrão, mais ou menos forte, conforme o canivete, já era o bastante para que a mola cedesse e a lâmina se fechasse de um golpe só. Pobre do dedo que estivesse na reta...

Com o tempo, foram aparecendo sistemas simples e eficazes de travamento. Vale observar que, no contexto nacional dos canivetes de produção industrial, temos notícia de um ou dois tipos de travas, no máximo. Mesmo assim, nos limites de minha experiência como comprador, desde cedo na vida tive a oportunidade de testar e atestar a duvidosa (leia-se baixa) qualidade desses produtos "seguros" made in Brazil. 


As grandes estrelas continuam sendo os canivetes fabricados por companhias de outros países. Mas, não queremos dizer que lá fora tudo seja bem feito; muito pelo contrário, a quantidade de lixo é enorme. É só abrir o Aliexpress, comprar pela aparência e esperar pelo desapontamento. Refiro-me aqui às marcas de reconhecida qualidade dentro de seus propósitos, quer os modelos se destinem a ser ferramentas boas e confiáveis, quer sejam configurados como armas. Poderíamos mencionar muitas marcas de comprovada qualidade e reputação, muitos ou pouco conhecidas do grande público, mas o objetivo ainda não é este. Este pequeno texto versa sobre travas. Por isto, me utilizo de alguns exemplares de meu pequeno acervo, os quais selecionei como exemplos de travamentos diferentes.

Este texto tem apelo técnico, porém passa longe de ser imparcial, ou seja, é assumidamente ligado à minha particular opinião, sobre o que acho melhor ou pior, sobre que aprecio ou deprecio. A beleza da coisa é esta: Não pretendo ensinar, nem falar com ares de expert, tampouco esgotar a questão. Quero apenas puxar conversa; afinal se o modelo de trava "X" ou "Y" é o "melhor", que o diga você também, com sua experiência que é única e diferenciada. Porque há travas extremamente seguras, nas quais uns confiam e outros não; neste último caso, seja por terem tido uma experiência ruim, seja por razões técnicas, seja por não irem com a "cara" do sistema de segurança. Tudo é válido. O tempo e o uso revelam os prós e os contras.

Vou falar do que tenho e tive. Canivetes com travas liner lock, frame lock, back lock e g-lock/axis lock. 

1) Browning Black Label "Checkmate"; CRKT M21 14SFG. 2) Kershaw Emerson CQC 6K. 3) Ganzo G720



Liner lock:


Talvez seja o travamento mais comum de se encontrar. Consiste, basicamente, numa haste com tensão de mola, que permanece pressionada contra um dos lados da armação, enquanto o canivete está fechado, e que se alinha sob parte inferior da lâmina, assim que esta se abre por completo.

A confiabilidade do liner lock depende de fatores como a qualidade do aço empregado na armação (que é o mesmo da haste), considerando sua têmpera e espessura, resistência da tensão de mola e o alinhamento entre a haste e a lâmina aberta (neste último detalhe, o esmero na usinagem e acabamento podem ser indicadores da qualidade da trava).

Haste fina ou grossa? Não importa muito. O que pesa é que ela permaneça no lugar, travando a lâmina aberta, sob ação esforços e impactos dos mais variados. Para tanto, conjugam-se os fatores citados no parágrafo anterior.

A esmagadora maioria dos liner locks é de construção simples, só a haste. Mas, como a criatividade é quase ilimitada no mercado (e no design funcional), você pode encontrar versões diferentes deste tipo deponde trava, com "reforço" por outros dispositivos assistentes, como no mostrado mais abaixo.

Pessoalmente, não costumava confiar em liners, mas isto se devia ao primeiro que tive, um nacional, de marca muito conhecida, que já me deu muitos sustos ao fechar abruptamente. Porém, essa impressão ruim desapareceu, quando adquiri outros (importados), de boa reputação no universo "faquista". Tanto passei a confiar que espero adquirir um modelo de karambit articulado da mais famosa marca do mundo, que é travado por liner lock.



Checkmate real e trainer

Detallhe: Liner lock fechado e aberto
CRKT: Liner "reforçado" por um dispositivo ("Autolawks") que mantém a trava firme no lugar.

Liner: Trava da lâmina. Autolawks: Trava da trava.

Liberador do Autolawks. Você pressiona, afasta o liner e fecha a lâmina.

CRKT M21 14SFG - "Pequenino", "delicado" e com aparência muito "amistosa".  Adoro esse "caniva"!


Frame lock:



Neste sistema de travamento a própria armação serve de apoio para a lâmina aberta. Um dos lados da estrutura é cortado e articulado como mola, que se encaixa na base da lâmina ao abrir. Geralmente, os modelos frame lock têm chassis robustos, que numa primeira olhada inspiram a maior confiança. Mas, não se deixe levar pelas aparencias, pois os mesmos fatores de usinagem e acabamento influem na efetividade do travamento, que, a exemplo dos liners, deve estar bem alinhado com a base da lâmina e não ceder fácil sob esforços e impactos.

Dizem alguns experts que o frame lock, com o tempo, tende a se deteriorar pelo atrito excessivo entre a trava e a base da lâmina. Alegam que as diferentes durezas, entre os materiais da armação e da lâmina (ambos geralmente aço) acabariam por impor um desgaste excessivo de uma das partes, o que resultaria em folga e posterior inutilização do sistema.

Gosto demais desse sistema. Para mim é o melhor e mais confiável. Tenho três, sendo dois de lâmina plana e um karambit. Entretanto, como disse no começo do texto, o juiz é você, com sua experiência e percepção. 




Kershaw Emerson CQC 6K, real e trainer.

Frame lock: vista geral. A própria armação, com pressão de mola, trava a lâmina. 


Detalhe: Frame lock fechado e aberto. 
Karambit Smith & Wesson frame lock. Desde 2011, nada a reclamar.

Axis lock:



É até difícil descrever essa "bagaça". As fotos mostrarão, mais abaixo. Mas se trata de um sistema de trava inserido no canivete, isto é, não se origina das partes comuns, componentes do mesmo.

Muito eficiente a olhos vistos. Você vê aquela barra atravessada, segurando a lâmina, e não fica dúvida quanto à solidez, que é um dos "prós". No lado dos "contras" pesam alguns pontos, quais sejam: o sistema é uma adição às partes que naturalmente compõem o canivete, sendo acionado por uma pequena mola, que posiciona o eixo de travamento sobre a base da lâmina aberta. Isso não chega a ser um problema, a não ser que a mola da trava se rompa ou perca a pressão. Outra coisa, que também não chega a ser um problema, mas uma certa limitação ao uso dos modelos axis lock como arma, é o fato da trava ceder e a lâmina fechar sob impactos mais fortes no dorso. Isso não é um defeito, mas uma característica de engenharia, pois, para que a trava se encaixe e segure a lâmina ao abrir, uma certa inclinação na base desta é exigida na construção.

O axis lock ficou famoso por sua igualmente famosa criadora, a Benchmade Knives. Sob o nome “g-lock” esse travamento foi incorporado pela Ganzo Knife em vários de seus modelos. A propósito, a despeito das menções preconceituosas que lhe dispensam em certos grupos de EDC (pelo jeito integrados apenas por "sábios" e “autoridades” no assunto ), Ganzo é uma ótima marca chinesa (isso mesmo) de canivetes e outros apetrechos. Robustez, resistência, bons materiais, design bonito, afiação top e preços muito, muito acessíveis, resumem um Ganzo. Claro que tem pontos merecedores de algum aperfeiçoamento, mas isso não diminui o mérito do produto.


Não tenho um Benchmade, mas tenho um Ganzo G720. O bicho é uma navalha de afiado; uma lâmina robusta com cerca de 90mm de comprimento por 4mm de espessura. Andei dando umas boas porradas, nele e com ele, para testar o g-lock/axis lock. Resultado: precisou de alguma força, porém nada exagerado, para a trava ceder e fechar a lâmina. Também assisti um vídeo com um comparativo entre Benchmade e Ganzo, que deu no mesmo... Minha pessoal conclusão: axis lock é uma ótima trava para canivete de serviço (ferramenta), mas não é confiável como arma, porque que num conflito estaria sujeito a impactos múltiplos, fortes, imprevisíveis e aleatórios, que poderiam fechar inesperada e violentamente o canivete. E, numa situação de vida ou morte, o que você não precisa é de seus dedos feridos por sua própria arma...


Salvo alguns detalhes que podem melhorar, é show! Robusto, razor sharp e o melhor custo x benefício da galáxia! 
O sistema depende dessa mola acionadora. O uso é intenso. Até hoje não deu susto.



O entalhe é inclinado em relação à trava, como uma rampa onde esta se firma ao acionar.


Back lock:


Atualmente, não tenho um desses modelos. O último que tive foi um "decepa dedo" de uma famosa marca nacional. As fotos foram cedidas pelo amigo Ricardo, de seu Spyderco Endura Wave.

O dorso desses canivetes é articulado e com pressão de mola. Sua extremidade próxima à lâmina costuma ter um entalhe em formato de "dente", que se encaixa numa contraparte de formato semelhante (na base da lâmina), formando um conjunto sólido.

Esse tipo de trava, em minha tosca opinião, talvez seja a que mais denuncie o nível de qualidade e know how do fabricante. Se for firme, sólido e preciso, como nos canivetes da Spyderco e da Cold Steel, parabéns, o "bicho" é seguro com louvor. Se for meia-boca na construção, ou feito com materiais ruins, aí é prejuizo na certa, especialmente para a mão que o empunha.

Certa vez ganhei de presente um desses back locks, de uma tradicional marca brasileira. Era um canivete dos grandes, só alegria, até o dia em que a pressão de minha própria mão sobre o cabo soltou a trava enquanto trabalhava. Sangue e decepção, seguidos da mais alta desconfiança. 


Fiquei "curado" da suspeita sobre os back locks quando (recentemente) conheci um Spyderco e um Cold Steel. Finos, especialmente o primeiro. Se gostou do sistema back lock e das marcas citadas, pode comprar sem medo. Tire o escorpião do bolso e seja feliz.


Spyderco Endura Wave - Sistema back lock

O back lock é simples e integra a estrutura

Esmero na construção é detalhe de importância crítica no travamento.


Detalhe: atuação do travamento back lock




domingo, 6 de agosto de 2017

Que venha o Pencak Silat Panglipur!

Neste domingo, 06 de agosto de 2017, tivemos a oportunidade de conhecer um pouco de uma arte de combate de primeira grandeza, o Pencak Silat Panglipur.

Participamos de um treino a convite do Kang Luiz Gustavo Metzker, único representante credenciado pela Panglipur na América Latina, em sua sede, situada em Sete Lagoas MG.

Foi uma experiência sensacional! Tivemos a chance de perceber as singularidades, os conceitos, a potência marcial dessa nobre arte; observamos, também, as semelhanças conceituais e práticas, que existem entre o Pencak Silat Panglipur e nosso amado PTK. Ficamos realmente surpresos com tudo, e muito entusiasmados com a aliança nascida do encontro.

Enquanto organização, o Kali MG sustenta o desenvolvimento de artes de origem indonésia, Pencak Silat, como um dos três pilares de nossos estudos. Era uma lacuna que faltava preencher. Agora está completo o quadro. Pekiti Tirsia Kali, o foco principal de nosso trabalho e compromisso, sob a égide da PTTA. Pencak Silat, e outras disciplinas combativas, como pilares que formam nosso "triângulo" marcial, com o qual avançamos na infinita estrada do conhecimento, que traz o bem e o crescimento a todos que sobre ela caminham.

Agradecemos de coração ao Kang Luiz por esse encontro. Que as sementes lançadas hoje frutifiquem com vigor e muita qualidade!

Agradecemos sobremaneira ao querido amigo Ulysses Moisés (Belém PA), sem o qual não teríamos tido esta magnífica reunião.

Mabuhay!

Da esq. para dir.: Eduardo (PTK), João (PTK), Kang Luiz (Pencak Silat Panglipur), Ramon (PTK).



terça-feira, 7 de outubro de 2014

This is Kali!

Publicamos o vídeo abaixo para prestar um esclarecimento, mais direto e menos expositivo, aos amigos que costumam perguntar o que é o Kali, como funciona, etc. Nossa opinião é de que o material é ótimo, prestando-se muito bem para fins de apresentação "panorâmica" da arte. Seus protagonistas são mestres ou exímios praticantes do Kali, mormente professores e instrutores de notória expertise.





segunda-feira, 30 de junho de 2014

As "desconhecidas" Artes Marciais Filipinas - VI

QUEM PODE PRATICAR KALI... E OUTROS ASSUNTOS


Considerando que o aprendizado se baseia no uso de armas, não exigindo grandes dotes de força, nem a condição física de um triatleta, nem a juventude como requisito essencial para “aguentar” o treinamento, nem categorias de peso, nem dietas rigorosas, pode-se afirmar com tranquilidade que praticamente todas as pessoas podem aprender e praticar o Kali, se desenvolvendo plenamente e aproveitando os benefícios da arte, desde que não sofra de limitação física capaz de inibir drástica ou totalmente a mobilidade. A arte é feita para a vida, para a vida comum, para a pessoa comum, a qual, na medida em que se desenvolve, vai se tornando em alguém com habilidades incomuns.

É óbvio que alguma capacidade aeróbica é desejável mas isso, bem como a força, se desenvolve com o próprio treinamento. A mecânica inerente a cada exercício ajuda a melhorar a capacidade muscular funcional, o que é muito bom para quem sente dificuldades para executar certos movimentos no dia a dia. Vale acrescentar, sobre a movimentação, que o Kali trabalha intensa e fundamentalmente a bilateralidade corporal. Exemplo disso são as técnicas denominadas “sinawalli” [“entrelaçamento”], que o estudante aprende com bastões em ambas as mãos e, com a prática, adquire segurança, habilidade e fluência também com outras armas. O Kali proporciona também uma considerável melhoria na percepção espacial, na educação das respostas baseadas em reflexos (transformando-as em atos conscientemente dirigidos), enfim, no aprimoramento da consciência corporal como um todo. Em boa parte, esses benefícios estão intimamente ligados ao fato de que o Kali se aprende, inicialmente, com armas. Afinal, como costumamos repetir, alguém pode se dar ao “luxo” de ser atingido por um soco, ou um chute, ainda que esses machuquem muito, mas ser atingido por um objeto contundente ou por uma lâmina é completamente diferente. Assim, tirar o condicionamento das respostas reflexas naturais e desenvolver outras, mais conscientes e mais ricas em possibilidades, bem como reconstruir a percepção natural de espaço e distância, são benefícios que o estudante encontra na prática do Kali. Além disso, contribui para melhorar o controle e a estabilidade emocional, dentre outros aspectos. Acrescente-se a isso o fato de toda a movimentação, tanto os deslocamentos, quanto a execução de técnicas, ser obediente a padrões geométricos bastante exatos, o que ensina ao praticante o mover-se com eficiência, leveza, graça e precisão, aprendizado que é muito útil no dia a dia, contribuindo para aumentar a segurança e para reduzir a “propensão para acidentes” de que muitos padecem, ajudando o indivíduo a ser, como é comum dizer, “menos estabanado”. O estudante de Kali passa a interagir melhor com o espaço ao seu redor…

Seguindo adiante, respondamos a algumas questões [dentre inúmeras] que talvez possam surgir em sua mente, amigo leitor:


Por que praticar uma Arte Marcial Filipina?

Porque faz bem, porque é agradável, porque é diferente, porque é relativamente leve, porque é divertido e, acima disso, porque é útil, muito útil por sinal. O Kali pode salvar sua vida, não “virtualmente”, como outras artes marciais prometem mas, de fato, pode fazer a diferença entre a vida e a morte numa situação extrema. Como afirmado ao longo de nossas postagens, trata-se de uma verdadeira arte de combate, o que ressalta sua utilidade diante da necessidade de sobrevivência e de preservação da própria integridade, nestes tempos marcados por crescente agressividade e violências sem sentido. Mas isso não significa que sua prática seja brutal, arriscada, ou regada a contusões e outras lesões. Nem significa que você será “transformado” em algum tipo de “matador” ou “ninja assassino”, com o perdão das expressões. Pelo contrário, o aprendizado é dos mais tranquilos e a prática é das que mais seguras que existem, além de que o estudante tende a se firmar como pessoa mais pacífica, uma vez que se torna mais consciente do próprio potencial e da crescente capacidade de autoproteção.

Diante desta explicação, pode se tornar difícil imaginar que seja, como acima dito, divertido treinar Kali. A realidade, porém é esta: poucos ambientes onde se pratica artes marciais são tão leves, descontraídos e alegres quanto os círculos do Kali. Predominam a receptividade, a confiança, a união e o bom humor..., mesmo em dias de treino intenso. Em boa parcela, o clima ameno e fraterno se deve à natureza da arte, que não é voltada para a competitividade arraigada, que não pretende formar “campeões”, que não se preocupa com disputas do tipo “ganhar ou perder” para provar posições fugazes e inconsistentes diante dos outros. Não se reserva espaço para o egocentrismo banal, nem para a autoafirmação insensata, nem para quem busque, num círculo de Kali, “descarregar” frustrações, raivas, ódios e outros venenos do espírito. Os grupos de Kali, e suas respectivas vertentes são feitos para o desenvolvimento humano em sua harmonia e equilíbrio. Nossa Grande Arte carrega uma grande responsabilidade pois se origina da guerra. Logo, está intimamente comprometida com a vida, com a preservação e com a plenitude desta. Por isso, não comporta mentalidades turvadas por rancores, ódios, preconceitos e outras misérias da alma. O Kali representa o espírito guerreiro de todos os que amam a vida e buscam a felicidade. Assim, a alegria está na essência da arte...


Praticar Kali emagrece?

Se disséssemos simplesmente que “sim, emagrece” não estaríamos sendo honestos com quem deseja exercícios para queimar gordura, mas não temos dúvidas de que muita gente iria querer aprender só por esse motivo. Ora, nem por questões de marketing afirmaríamos tal coisa, pois não é verdade, assim como não é verdade dizer que sim em relação APENAS a quaisquer exercícios que prometem uma silhueta "fininha", sem um método e uma disciplina que torne isso uma realidade. É claro que uma arte marcial ajuda, como a ginástica numa academia ajuda. Ou seja, a prática persistente e sistemática, aliada a dietas adequadas, orientação profissional e disciplina de hábitos, é que realmente faz emagrecer de maneira saudável. Certamente, os exercícios do Kali [aeróbicos por excelência] podem dar uma mãozinha, com a vantagem de se aprender uma arte marcial que funciona plenamente para a vida toda, além do que, por desenvolver a disciplina e a excelência das aptidões individuais, o Kali acaba contribuindo num ponto importantíssimo quando o assunto é emagrecer, que é o fortalecimento da vontade! Mas a resposta final ainda é: sozinho não emagrece.

Uma coisa curiosa, e que merece ser dita, é que muitos praticantes de Kali comportam uns “quilinhos a mais” no corpo. Aliás, não faltam instrutores e mestres com estas características no mundo do Kali [se você procurar na Internet vai encontrar com facilidade]. Mas, não se engane pensando que eles podem padecer de agilidade, força, fôlego, ou saúde, pois o treinamento desenvolve movimentação harmoniosa, leve, rápida e ágil, além de excelente condição de saúde, sejam quais forem as características físicas individuais.


Existe algum sistema de graduação? Como funciona?

No Kali, a exemplo das outras artes marciais, existem “graduações” que servem pra indicar o progresso do estudante, assinalando a competência adquirida no aprendizado. A graduação é conferida pelo Professor ou pelo Mestre como função natural, a partir da observação continuada. O aluno é avaliado sempre, em cada treino, como entidade técnica e noutros aspectos, de natureza moral e de convivência com os demais. Há de se saber a técnica, mas há de ser boa pessoa. Vale assinalar que no Kali a graduação assinala a caminhada do estudante e não, como muitas mentalidades diminutas pretendem, qualquer tipo de “superioridade” ilusória, a que tantos se apegam, na esperança vã de se sentirem melhores em face das próprias frustrações ou de uma baixa autoestima. Nada disso. Os graus representam o quanto se caminhou e a responsabilidade inerente aos passos dados. São, também, incentivos para o futuro, convidando o estudante a continuar aprendendo...

Quanto ao formato dos “graus” em si, esses são denominados e simbolizados de acordo com o critério de cada Escola; algumas adotam o sistema de faixas e cores, herdado das artes marciais japonesas e muito familiar no ocidente; outras adotam designações e títulos tradicionais que, aliás, têm muitas nomenclaturas, conforme a região donde se originaram, adotando ou não símbolos, como cores no uniforme, etc.

O tempo rege a evolução de todas as coisas. Nas artes marciais em geral conjuga-se tempo de treinamento e metas curriculares para conceder-se ao aprendiz a oportunidade de ser avaliado e “progredido”. Todavia, ao que parece, existe uma inclinação geral, se assim podemos dizer, das Escolas de Artes Marciais Filipinas se orientarem mais por metas alcançadas que por tempo de treinamento, podendo ainda conjugar ambos os critérios, para que o estudante possa receber uma nova graduação. O progresso depende de você apenas. Logo, se conseguir cumprir satisfatoriamente os requisitos técnicos exigidos, você pode almejar... Fica fácil concluir que o Kali exige do estudante um bom conhecimento das próprias capacidades, limites e boas doses de realismo e honestidade para consigo mesmo.

Afirmamos acima que importa mais atingir o aprendizado efetivo que o tempo de treinamento para alcançar "graduações" no Kali. De maneira alguma isso significa que, numa eventual avaliação, o simples fato de o aluno apresentar com APARENTE perfeição as técnicas que lhe cabe conhecer lhe garantirá o grau almejado. Não, o aluno deverá mostrar, em cada oportunidade de treino formal, que realmente assimilou o que lhe foi ensinado. O Kali, sendo uma arte guerreira por excelência, cuja filosofia e prática se pauta no binômio extremo (vida ou morte), não admite que alguém “finja aprendizado”. Afinal, se tiver que enfrentar um conflito real, você pode ter o desgosto de dar prova de que nada aprendeu, simplesmente morrendo… Por isso, se você pretende estudar Artes Marciais Filipinas, tire da cabeça o ilusório status que uma graduação lhe pode conferir e preocupe-se em aprender, em tornar cada técnica parte de sua própria natureza, a fim de que elas fluam e se manifestem tão facilmente como respirar…


Existem torneios e competições? Eles fazem parte do currículo?

Isto também representa uma enorme variável no universo das FMA, pois há Escolas que valorizam as competições visando promover aspectos esportivos da arte, enquanto outras Escolas não consideram a competitividade como aspecto relevante. Ambas as perspectivas são igualmente válidas e amplamente discutíveis. Particularmente, consideramos que a natureza do Kali não é desportiva, motivo pelo qual não incentivamos tais atividades, pelo que, caro leitor, você [que talvez possa ser um entusiasta dos torneios de artes marciais] se pergunte qual seria razão. A resposta está ligada a alguns fatores simples, o primeiro deles histórico: o Kali é nascido da guerra, logo é uma arte voltada para situações reais de confronto. Outro motivo é que, para moldar-se a limitações e regras desportivas, uma arte marcial deve necessariamente se despir de algumas de suas características mais importantes, como ocorreu por exemplo com o Taekwon-do e o Karate-do, a fim de que pudessem ser admitidos como esportes olímpicos. Acreditamos que tais adaptações esportivas, ao suprimirem técnicas e com isso a liberdade de ação do “competidor”, com o tempo acabam por determinar para ao praticante novos condicionamentos que se podem consolidar em restrições inconscientes no campo da ação. Limitações perigosas, que poderão ser muito prejudiciais e até fatais caso a arte tenha que ser invocada numa situação hostil de verdade. Ora, não cremos que seja adequado condicionar uma arte baseada na ideia de sobrevivência a comportamentos que acabarão por restringir as capacidades do aluno, conduzindo-o a deixar de ser um artista marcial, com pleno conhecimento de uma arte íntegra e integral, para se tornar alguém que tenha como foco de treinamento apenas determinadas técnicas desportivamente admitidas. 

Cabe, contudo, esclarecer que sim, costumamos promover lutas em nossos círculos de treinamento. Nunca para “provar” uma falsa, tola e imatura ideia de superioridade individual mas, essencialmente, para aprimorar a habilidade pessoal, para aplicar as técnicas aprendidas e estudadas, para desenvolver agilidade, para aprimorar os reflexos e a coordenação motora, para melhorar e beneficiar a condição física e aeróbica dos estudantes, para adestrar a mente e o corpo ao enfrentamento de tensões e para refinar a capacidade de tomar decisões em qualquer contexto. Enfim, a luta serve para ajudar no desenvolvimento global, inclusive no campo interno, o das Virtudes, pois nos “combates” o estudante pode conhecer melhor a si mesmo, identificando as próprias deficiências, aprendendo a superá-las, incorporando assim a humildade, o discernimento, a segurança, a paciência, a tolerância e a perseverança, tão necessárias ao enfrentamento das situações comuns à vida cotidiana. Ainda, cabe dizer que nossos “confrontos” são realizados com uso de equipamentos de proteção individual [EPI], sobretudo óculos e armamento adequado [bastões espumados, facas de material emborrachado ou espuma densa, luvas, etc]. Pode lutar sem susto, caro leitor!

No âmbito da AMK (Associação Mineira de Kali, ancestral do K1307), ressaltamos, as práticas combativas permanecem voltadas exclusivamente para o aprimoramento geral dos estudantes. Nessas ocasiões que cada qual pode aplicar os conhecimentos adquiridos, perceber suas próprias dificuldades, corrigir falhas e “testar” as próprias habilidades, exercitando seu “espírito guerreiro” num clima saudável e descontraído, onde predomina a amizade.

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Nessas lutas, durante os treinamentos, existe distinção em categorias individuais?

Pode ser que haja distinção, se considerarmos as diversas Escolas. Nos círculos do K1307 não praticamos qualquer discriminação no tocante a combates armados, sendo a única exceção aquela que diz respeito às crianças que, pela própria condição demandam cuidados adicionais, especialmente quanto ao uso de armas, até certa idade restrito aos bastões, por serem estes instrumentos indispensáveis aos aspectos pedagógicos do Kali. No mais, homens, mulheres, jovens e idosos, combatem em condição idêntica, sem separação em categorias, prevalecendo o princípio de adaptação das próprias características às do oponente, mesmo porque o Kali, sendo voltado para atender a situações reais, não se atém à crença ilusória de alguém possa se dar ao luxo de escolher adversários. O amigo leitor, caso venha a se tornar um estudante, ficará surpreso ao constatar como a lógica da condição física superior pode ser facilmente contrariada, inibida, anulada e destruída nos combates.
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Crianças, adolescentes, idosos e a prática do Kali. Como ficam?

Esclarecendo um pouco mais, falemos sobre os mais jovens, especialmente as crianças. Afirmamos acima que os pequenos treinam e podem participar das lutas com restrição de armamento (limitado ao bastão) entre os sete e os dez anos, e cuidados especiais. Esses cuidados não dizem apenas respeito à luta em si, mas principalmente à educação baseada na atividade, quais sejam, ao uso construtivo da abundante energia de que são dotados, à canalização da agressividade natural, ao respeito devido aos pais e aos semelhantes, à disciplina consciente nos afazeres, ao senso de cumprimento dos próprios deveres [especialmente os escolares!], ao senso de colaboração, ao desenvolvimento das habilidades físicas, ao controle emocional, ao estímulo de soluções criativas para situações diversas e adversas com tranquilidade, boa disposição e equilíbrio. Esse último ponto é muito interessante [e até divertido durante os treinos] e se mostra muito claro quando é dada à criança a oportunidade de “enfrentar” os colegas adultos, que naturalmente transformam seus “ataques” em estímulos para os pequenos lutadores os quais, em sua expectativa agitada, aprendem a lidar com “desafios”, muitas vezes vistos pela perspectiva infantil como difíceis ou de solução impossível. A cada “ameaça” defendida pela criança com esquivas, movimentos, bloqueios, etc, a comemoração, a torcida e os aplausos são inevitáveis, sendo ao final coroado com as observações, correções e respostas do instrutor às muitas perguntas que cada pequenino despeja aos montes, desejando saber como foi o desempenho na luta. Ao longo do tempo a nota mais marcante neste aspecto tem sido a melhoria da comunicação, do entendimento, da disciplina e da aproximação, especialmente entre pais e filhos que treinam juntos, o que temos tido o privilégio e a grata satisfação de testemunhar no decorrer das atividades. A criança se sente integrada e valorizada pela prática do Kali.

E quanto aos idosos? Conforme dissemos alhures, o princípio da adaptabilidade prevalece na prática do Kali, o que permite que o aluno, mesmo se achando “enferrujado”, desenvolva sua técnica com tranquilidade e indiscutível eficiência, o que é muito fácil de se ver nos “combates”. Temos visto inúmeras vezes a habilidade, as virtudes e a experiência [adquiridas ao longo da vida], aliados ao domínio da técnica, suplantar com grandes vantagens a “força dos mais jovens”, sem falar na melhoria da capacidade física e mental, da agilidade, do equilíbrio, do sentimento de segurança, da vitalidade e da boa disposição que vemos despontar, empolgando os colegas da terceira idade durante os treinos. Parece brincadeira, mas não é: no contexto do Kali, aquela conhecida figura do velhinho “armado” com uma bengala se torna pura realidade..., muito eficaz e até letal, diga-se de passagem. O Kali mostra ao indivíduo que ele tem qualidades que não se perdem sob o fluxo do tempo, o que desperta o ânimo e a alegria de viver.













Como é considerada a ideia de combate, tão referida no Kali?

Ao contrário do que se pode imaginar ingênua e romanticamente, a ideia de combate não comporta exatamente uma disputa ou medição de forças mas, antes de tudo, a ideia de uma contraposição de interesses em situações onde os meios pacíficos de composição, de entendimento mútuo, de persuasão e convencimento racionais já se acham esgotados, restando como único e último recurso o uso da força para solução da questão e garantia da integridade geral. Quando o Direito não se expressa pelo respeito à vida; quando a Virtude do Respeito espontâneo, conquista evolutiva e moral da humanidade, se acha em falta pela violência de outrem, a última "razão" ("extrema ratio") que resta é o uso de força para restaurar a paz e preservar a integridade de quem se vê passível de ser vitimado pelo ato violento. Tal tipo de cenário somente costuma se apresentar na vida, não nos ringues ou octógonos, mas em situações de perigo real e imediato, nas quais a vida e a sobrevivência estão no centro das necessidades.

Por isso, em relação ao Kali sempre afirmamos que a luta não é valorizada, ao contrário do que ocorre com as artes onde o aspecto "competitivo" predomina. Valor real é a inexistência de conflito, a paz. Logo, no universo do Kali, inclusive no que toca ao aprendizado da luta desarmada, se aplica o princípio da finalização da contenda e não de sua prolongação, como “medição de forças” ou disputa competitiva [tão valorizada na em nossa cultura ocidental].

As Artes Marciais Filipinas não "se fizeram presentes" nos campos de batalha destacando-se como algo excepcional. Elas, de fato, faziam parte do dia a dia dos povos e das pelejas tribais nas Filipinas de outrora. E estiveram massivamente presentes em muitos conflitos contemporâneos, com muito êxito mesmo diante do predomínio do uso de armas de fogo, estas que, em distâncias curtas e corpo-a-corpo de combate (close quarters), se mostram de uso difícil e, muitas vezes, impraticável. Aqueles que lidam profissionalmente com segurança pública e privada, policiais, guardas municipais e agentes privados, além das pessoas comuns que lograram êxito numa, como é comum dizer, "luta corporal", contra indivíduo munido de arma de fogo, sabem o quanto é importante e vital desmobilizar o quanto antes o oponente. Combate significa deter uma agressão no menor tempo e com a máxima eficácia possível!

Os princípios da sobrevivência e do restabelecimento da paz prevalecem na filosofia prática do Kali. Por isso todas as técnicas, mesmo as desarmadas, sempre se apoiam numa precisa tecnologia de desmobilização rápida do atacante, com recursos [sempre] incapacitantes em vários graus. Por isso, como dito anteriormente, o estudante recebe reforços constantes, relativos ao senso de responsabilidade no aprendizado e em relação ao próprio comportamento na vida diária, que deve ser pautado pelo respeito, pelo bom entendimento e pelo reconhecimento dos valores mais altos da existência humana.

Podemos considerar o Kali uma arte marcial voltada para a defesa pessoal?

A resposta a tal pergunta não é simples, a ponto de ser satisfeita com um simples "sim" ou "não". Como deve ter ficado claro neste artigo e nos precedentes, o Kali é uma arte guerreira por excelência e, como tal, contempla em sua natureza a ideia primordial de supressão e destruição da capacidade ofensiva do atacante, seja com efeitos temporários ou permanentes, sempre segundo uma postura ou atitude positiva, isto é, de forma ativa. Sob esse ponto de vista, o atacante e seu ataque são considerados alvos. Em termos comuns, diante de uma agressão (onde seja viável uma resposta), a atitude é, basicamente, "partir para cima" e fazer cessar o ataque, utilizando o conhecimento sob a tática adequada, para anular o ataque de maneira rápida e definitiva. Logo, a ideia comum, que prevalece em torno das técnicas de "defesa pessoal", baseadas em uma atitude passiva e receptiva, onde se usa bloqueios, esquivas e contragolpes para incentivar o agressor a desistir, ou para dominá-lo, não constitui objeto de preocupação para o estudante de Kali no âmbito do K1307, que é ensinado a interagir com a imprevisibilidade do oponente de maneira adequada a assegurar ao máximo sua integridade ou daqueles a quem proteja.

Que nos perdoem os adeptos da "defesa pessoal" baseada em circuitos de estímulo-resposta condicionados mas, a bem da verdade, não se pode contar com expectativas ou "cartilhas" onde ataques e reações de defesa são descritos de forma conjugada ou como "possibilidades". O ser humano é imprevisível por excelência e, por força desse princípio, não nos parece lícito condicionar alguém a um conjunto de técnicas que prevêem ataques deste ou daquele tipo, aos quais se responde com defesas pré-fabricadas. Suponha, caro leitor, que você se torne um "expert" em defesa pessoal, que tenha estudado mil e uma formas de se desvencilhar quando agarrado e contra-atacar com este ou aquele golpe. E se o agressor surge ameaçando com fintas de faca? E se ele vem com um porrete, um facão, um soco, um chute, acompanhado de um comparsa, etc? E se..., e se..., e se...? Como fica? E se você for uma mulher? Onde está o "golpe" de chutar os genitais do estuprador? E se for um adolescente desacompanhado? Onde está o seu spray de pimenta? E se você é um daqueles indivíduos que andam "preparados", cadê sua pistola .380ACP, se o ataque literalmente cai em cima de você? Ou você ainda acha que ninguém consegue tomar sua arma? Pois é..., agressões sérias costumam ser assim, de emboscada, traiçoeiras, insanas e abruptas. Nesses momentos talvez as únicas coisas que estejam imediatamente ao seu alcance sejam suas características mentais, seu aprendizado, e sua capacidade em adaptar-se de imediato, para se valer de uma caneta, uma chave, um adorno de cabelo, suas mãos nuas... É de se esperar que a cartilha "modelo bateu-levou" de defesa pessoal entre em colapso na mesma hora, diante do susto, da imagem do oponente, ou da lâmina brilhante que dança para lá e para cá.

Em nossos círculos de treinamento não se apregoa e não se ensina "defesa pessoal". Treina-se o estudante de forma curricular, com tudo o que ele deva aprender e, na medida que isso ocorre, ele vai sendo ensinado a interagir e agir de maneira livre e criativa, adequando de imediato suas respostas aos ataques e ameaças da maneira que esses se apresentem. Ele aprende a perceber, avaliar e AGIR de maneira natural, com correção e eficácia, seja com armas propriamente ditas ou improvisadas ou desarmado, para defender a si mesmo e a outros, afastando ou pondo fim a uma agressão.

Nos círculos do Kali 1307, como já dito, prevalecem a amizade sincera, a leveza, o bom-humor, a tranquilidade e a alegria de aprender. Mas ninguém se esquece dos objetivos interiores e vitais, comprometidos com o autoconhecimento, o adestramento das emoções e do medo, o desenvolvimento da inteligência e do raciocínio, a melhoria das habilidades físicas, a cultura da Virtude e da Disciplina, o fortalecimento do caráter e o senso realista do valor da vida e da mortalidade humana. Na medida em que evolui, o ser humano passa a se defender melhor e mais conscientemente, pois tudo o que ele é vai se tornando compreensível e passível de ser submetido à própria vontade. Esses são os valores verdadeiramente ativos diante de qualquer combate, seja nos momentos críticos, em que se luta para continuar vivendo, seja diante dos inúmeros percalços e obstáculos que cada um enfrenta através da incrível jornada que é a existência humana.

Por enquanto é isso, amigo leitor. Sinta-se à vontade para comentar e nos dirigir suas dúvidas e outras sugestões que lhe vierem à mente. Teremos prazer em responder.

Forte abraço.

Até a próxima postagem.

Mabuhay!


R.Teixeira.


Leia também, clicando nos links abaixo:

Parte I - Introdução

Parte II - Como surgiram as FMA

Parte III - Como funcionam

Parte IV - As armas do Kali

Parte V - Com as mãos vazias


Parte VII - O Kali diante do mundo

Kali MG - treinamento combate faca família

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