quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Uns canivetes..., umas travas...

Quando se trata de canivetes, um assunto que ocupa tanto o desconhecimento, quanto a esclarecida preferência pessoal é o travamento, responsável pela segurança no uso do artefato e pela usabilidade diante múltiplas aplicações.

Nos tempos do "pica-fumo" do vovô a segurança era zero, resumida na tensão de mola que mantinha a lâmina firme, quando aberta ou fechada. Um simples esbarrão, mais ou menos forte, conforme o canivete, já era o bastante para que a mola cedesse e a lâmina se fechasse de um golpe só. Pobre do dedo que estivesse na reta...

Com o tempo, foram aparecendo sistemas simples e eficazes de travamento. Vale observar que, no contexto nacional dos canivetes de produção industrial, temos notícia de um ou dois tipos de travas, no máximo. Mesmo assim, nos limites de minha experiência como comprador, desde cedo na vida tive a oportunidade de testar e atestar a duvidosa (leia-se baixa) qualidade desses produtos "seguros" made in Brazil. 


As grandes estrelas continuam sendo os canivetes fabricados por companhias de outros países. Mas, não queremos dizer que lá fora tudo seja bem feito; muito pelo contrário, a quantidade de lixo é enorme. É só abrir o Aliexpress, comprar pela aparência e esperar pelo desapontamento. Refiro-me aqui às marcas de reconhecida qualidade dentro de seus propósitos, quer os modelos se destinem a ser ferramentas boas e confiáveis, quer sejam configurados como armas. Poderíamos mencionar muitas marcas de comprovada qualidade e reputação, muitos ou pouco conhecidas do grande público, mas o objetivo ainda não é este. Este pequeno texto versa sobre travas. Por isto, me utilizo de alguns exemplares de meu pequeno acervo, os quais selecionei como exemplos de travamentos diferentes.

Este texto tem apelo técnico, porém passa longe de ser imparcial, ou seja, é assumidamente ligado à minha particular opinião, sobre o que acho melhor ou pior, sobre que aprecio ou deprecio. A beleza da coisa é esta: Não pretendo ensinar, nem falar com ares de expert, tampouco esgotar a questão. Quero apenas puxar conversa; afinal se o modelo de trava "X" ou "Y" é o "melhor", que o diga você também, com sua experiência que é única e diferenciada. Porque há travas extremamente seguras, nas quais uns confiam e outros não; neste último caso, seja por terem tido uma experiência ruim, seja por razões técnicas, seja por não irem com a "cara" do sistema de segurança. Tudo é válido. O tempo e o uso revelam os prós e os contras.

Vou falar do que tenho e tive. Canivetes com travas liner lock, frame lock, back lock e g-lock/axis lock. 

1) Browning Black Label "Checkmate"; CRKT M21 14SFG. 2) Kershaw Emerson CQC 6K. 3) Ganzo G720



Liner lock:


Talvez seja o travamento mais comum de se encontrar. Consiste, basicamente, numa haste com tensão de mola, que permanece pressionada contra um dos lados da armação, enquanto o canivete está fechado, e que se alinha sob parte inferior da lâmina, assim que esta se abre por completo.

A confiabilidade do liner lock depende de fatores como a qualidade do aço empregado na armação (que é o mesmo da haste), considerando sua têmpera e espessura, resistência da tensão de mola e o alinhamento entre a haste e a lâmina aberta (neste último detalhe, o esmero na usinagem e acabamento podem ser indicadores da qualidade da trava).

Haste fina ou grossa? Não importa muito. O que pesa é que ela permaneça no lugar, travando a lâmina aberta, sob ação esforços e impactos dos mais variados. Para tanto, conjugam-se os fatores citados no parágrafo anterior.

A esmagadora maioria dos liner locks é de construção simples, só a haste. Mas, como a criatividade é quase ilimitada no mercado (e no design funcional), você pode encontrar versões diferentes deste tipo deponde trava, com "reforço" por outros dispositivos assistentes, como no mostrado mais abaixo.

Pessoalmente, não costumava confiar em liners, mas isto se devia ao primeiro que tive, um nacional, de marca muito conhecida, que já me deu muitos sustos ao fechar abruptamente. Porém, essa impressão ruim desapareceu, quando adquiri outros (importados), de boa reputação no universo "faquista". Tanto passei a confiar que espero adquirir um modelo de karambit articulado da mais famosa marca do mundo, que é travado por liner lock.



Checkmate real e trainer

Detallhe: Liner lock fechado e aberto
CRKT: Liner "reforçado" por um dispositivo ("Autolawks") que mantém a trava firme no lugar.

Liner: Trava da lâmina. Autolawks: Trava da trava.

Liberador do Autolawks. Você pressiona, afasta o liner e fecha a lâmina.

CRKT M21 14SFG - "Pequenino", "delicado" e com aparência muito "amistosa".  Adoro esse "caniva"!


Frame lock:



Neste sistema de travamento a própria armação serve de apoio para a lâmina aberta. Um dos lados da estrutura é cortado e articulado como mola, que se encaixa na base da lâmina ao abrir. Geralmente, os modelos frame lock têm chassis robustos, que numa primeira olhada inspiram a maior confiança. Mas, não se deixe levar pelas aparencias, pois os mesmos fatores de usinagem e acabamento influem na efetividade do travamento, que, a exemplo dos liners, deve estar bem alinhado com a base da lâmina e não ceder fácil sob esforços e impactos.

Dizem alguns experts que o frame lock, com o tempo, tende a se deteriorar pelo atrito excessivo entre a trava e a base da lâmina. Alegam que as diferentes durezas, entre os materiais da armação e da lâmina (ambos geralmente aço) acabariam por impor um desgaste excessivo de uma das partes, o que resultaria em folga e posterior inutilização do sistema.

Gosto demais desse sistema. Para mim é o melhor e mais confiável. Tenho três, sendo dois de lâmina plana e um karambit. Entretanto, como disse no começo do texto, o juiz é você, com sua experiência e percepção. 




Kershaw Emerson CQC 6K, real e trainer.

Frame lock: vista geral. A própria armação, com pressão de mola, trava a lâmina. 


Detalhe: Frame lock fechado e aberto. 
Karambit Smith & Wesson frame lock. Desde 2011, nada a reclamar.

Axis lock:



É até difícil descrever essa "bagaça". As fotos mostrarão, mais abaixo. Mas se trata de um sistema de trava inserido no canivete, isto é, não se origina das partes comuns, componentes do mesmo.

Muito eficiente a olhos vistos. Você vê aquela barra atravessada, segurando a lâmina, e não fica dúvida quanto à solidez, que é um dos "prós". No lado dos "contras" pesam alguns pontos, quais sejam: o sistema é uma adição às partes que naturalmente compõem o canivete, sendo acionado por uma pequena mola, que posiciona o eixo de travamento sobre a base da lâmina aberta. Isso não chega a ser um problema, a não ser que a mola da trava se rompa ou perca a pressão. Outra coisa, que também não chega a ser um problema, mas uma certa limitação ao uso dos modelos axis lock como arma, é o fato da trava ceder e a lâmina fechar sob impactos mais fortes no dorso. Isso não é um defeito, mas uma característica de engenharia, pois, para que a trava se encaixe e segure a lâmina ao abrir, uma certa inclinação na base desta é exigida na construção.

O axis lock ficou famoso por sua igualmente famosa criadora, a Benchmade Knives. Sob o nome “g-lock” esse travamento foi incorporado pela Ganzo Knife em vários de seus modelos. A propósito, a despeito das menções preconceituosas que lhe dispensam em certos grupos de EDC (pelo jeito integrados apenas por "sábios" e “autoridades” no assunto ), Ganzo é uma ótima marca chinesa (isso mesmo) de canivetes e outros apetrechos. Robustez, resistência, bons materiais, design bonito, afiação top e preços muito, muito acessíveis, resumem um Ganzo. Claro que tem pontos merecedores de algum aperfeiçoamento, mas isso não diminui o mérito do produto.


Não tenho um Benchmade, mas tenho um Ganzo G720. O bicho é uma navalha de afiado; uma lâmina robusta com cerca de 90mm de comprimento por 4mm de espessura. Andei dando umas boas porradas, nele e com ele, para testar o g-lock/axis lock. Resultado: precisou de alguma força, porém nada exagerado, para a trava ceder e fechar a lâmina. Também assisti um vídeo com um comparativo entre Benchmade e Ganzo, que deu no mesmo... Minha pessoal conclusão: axis lock é uma ótima trava para canivete de serviço (ferramenta), mas não é confiável como arma, porque que num conflito estaria sujeito a impactos múltiplos, fortes, imprevisíveis e aleatórios, que poderiam fechar inesperada e violentamente o canivete. E, numa situação de vida ou morte, o que você não precisa é de seus dedos feridos por sua própria arma...


Salvo alguns detalhes que podem melhorar, é show! Robusto, razor sharp e o melhor custo x benefício da galáxia! 
O sistema depende dessa mola acionadora. O uso é intenso. Até hoje não deu susto.



O entalhe é inclinado em relação à trava, como uma rampa onde esta se firma ao acionar.


Back lock:


Atualmente, não tenho um desses modelos. O último que tive foi um "decepa dedo" de uma famosa marca nacional. As fotos foram cedidas pelo amigo Ricardo, de seu Spyderco Endura Wave.

O dorso desses canivetes é articulado e com pressão de mola. Sua extremidade próxima à lâmina costuma ter um entalhe em formato de "dente", que se encaixa numa contraparte de formato semelhante (na base da lâmina), formando um conjunto sólido.

Esse tipo de trava, em minha tosca opinião, talvez seja a que mais denuncie o nível de qualidade e know how do fabricante. Se for firme, sólido e preciso, como nos canivetes da Spyderco e da Cold Steel, parabéns, o "bicho" é seguro com louvor. Se for meia-boca na construção, ou feito com materiais ruins, aí é prejuizo na certa, especialmente para a mão que o empunha.

Certa vez ganhei de presente um desses back locks, de uma tradicional marca brasileira. Era um canivete dos grandes, só alegria, até o dia em que a pressão de minha própria mão sobre o cabo soltou a trava enquanto trabalhava. Sangue e decepção, seguidos da mais alta desconfiança. 


Fiquei "curado" da suspeita sobre os back locks quando (recentemente) conheci um Spyderco e um Cold Steel. Finos, especialmente o primeiro. Se gostou do sistema back lock e das marcas citadas, pode comprar sem medo. Tire o escorpião do bolso e seja feliz.


Spyderco Endura Wave - Sistema back lock

O back lock é simples e integra a estrutura

Esmero na construção é detalhe de importância crítica no travamento.


Detalhe: atuação do travamento back lock




3 comentários:

  1. Frame locks (principalmente com frame em titânio) costumam ter um "insert" no ponto de atrito entre a lâmina na e a trava. Normalmente o insert é de aço, já que o titânio é muito mais "frágil " que o aço, do ponto de vista do atrito.

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  2. Alguns "antigos" tinham travas muito boas sim! Elas só não eram tão "táticas" quanto as atuais. As travas das "navajas" espanholas/corsas (tipo o Kudu da Cold Steel), por exemplo. Outro exemplo é o super-confiável, velho cavalo de batalha: o Opinel! A trava em anel dele é simples, prática, engenhosa e confiável.

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    1. Realmente, você trouxe à lembrança o fantástico Opinel, com sua trava de engenhosidade única. A propósito, Pedrão, se você quiser estender o assunto, sinta-se convidado. Esses "antigos" são praticamente desconhecidos pela maioria de nós. Obrigado!

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