segunda-feira, 26 de agosto de 2013

As "desconhecidas" Artes Marciais Filipinas - III

COMO O KALI FUNCIONA?

Baseiam-se no uso de armas as FMA [Filipino Martial Arts], que doravante trataremos, para simplificar, por KALI [ou outra expressão, quando for o caso]. Sim, o Kali fundamenta-se no aprendizado de técnicas armadas, mas não se restringe a estas, como se verá. Vai muito além, configurando uma arte marcial riquíssima e completa em todos os fundamentos e instâncias de combate.

A premissa básica da filosofia de “arte marcial armada” é lógica e fácil de ser entendida: O ser humano  nasce fraco. Dentre as criaturas de Deus certamente é a que mais depende de apoio externo desde que vem ao mundo. Não pode, por si só, coisa alguma; nasce sem pelos, sem dentes, sem consistência muscular, sem coordenação motora, sem a força instintiva que lhe permita lidar de imediato com o meio ambiente.  Em sobrevivendo ao nascimento, se desenvolve totalmente dependente e amparado por outros; não lhe crescem presas, nem garras e nem lhe reveste o corpo uma carapaça, nem couraça, nem espinhos que o possam naturalmente vir a proteger quando adulto. A criatura crescida continua no todo fraca, a despeito dos músculos que possa desenvolver e da força física que possa ostentar. Entretanto, por ser dotado de inteligência, o homem acabou por suplantar as ameaças naturais e, também, as impostas por seus semelhantes, por uma genial ideia: valer-se de instrumentos extensores da própria capacidade física e de suas limitações naturais. Assim, afirmam os estudiosos, que de toscos pedaços de madeira, das pontas de ossos, das lascas cortantes de sílex, nasceram as armas, que seguiram evoluindo pelo domínio dos metais. E foram as armas que, em importantes aspectos, abriram as portas para a sobrevivência de nossa espécie, propiciando o estabelecimento da civilização organizada. Logo, o homem se vale de armas, antes mesmo de contar com suas próprias capacidades naturais, quando o assunto é sobreviver, fazer prevalecer suas conquistas, garantir sua liberdade. As Artes Marciais Filipinas seguem, por assim dizer, o curso da civilização... Mas nem só de armas é feito o Kali, pois, paralelamente às técnicas armadas [que compõem o início do aprendizado], o estudante recebe instrução em técnicas desarmadas, das quais falaremos adiante. A arte é completa!


Os filipinos assumiram cedo essa verdade, que diz respeito à fragilidade humana. Por isso cuidaram de desenvolver toda uma cultura guerreira baseada no refinado uso de instrumentos de combate, que permanece até nossos dias sob a forma das Artes Marciais que chegaram até nós. Estando isto bem compreendido, talvez venha à sua mente, caro leitor, uma pergunta, que bem poderia ser esta: Então, será o Kali uma arte marcial muito violenta? A resposta mais óbvia e comum a esta pergunta é totalmente equivocada, pois é justamente o treinamento com armas que faz do Kali uma arte marcial que conta com aprendizado nada violento, uma vez que o estudante é educado, antes de tudo, para proteger-se e preservar a integridade física de seus companheiros de treinamento, mesmo nos exercícios mais simples. Você, que os lê os sucessivos capítulos deste ensaio, não irá se ver [no dia a dia do treinamento] exposto aos desanimadores incidentes e lesões, características comuns às outras artes marciais ditas “de contato”, a exemplo dos socos violentos aos quais um boxeador está sujeito [e recebe] a cada treino; das superextensões musculares danosas, dentre um sem-número de lesões bem conhecidas por lutadores de modalidades marciais muito populares, especialmente as que prezam muito os aspectos esportivos e competitivos. Que nos perdoem os que defendem posição diversa, mas entendemos que o Kali não é uma arte marcial de natureza desportiva, e menos ainda, competitiva. É, literalmente, marcial... 

O Kali, por ser uma arte cujo estudo começa com armas, desenvolve uma percepção espacial ampliada, refina os reflexos, aumenta a coordenação motora, torna real o senso de proteção/defesa e melhora a percepção de distância. Afinal, usando novamente o exemplo das artes marciais mais conhecidas do público, você pode se dar ao “luxo” de ser atingido por um soco ou por um chute, pois é provável que você termine com uma forte contusão, ou um osso quebrado que seja, na pior das hipóteses, durante o treino. Ser atingido por uma arma é coisa bem mais difícil de suportar, pois o menor dano produzido por uma arma costuma ter consequências mais dramáticas que o desfalecimento induzido por um soco certeiro. Para se ter uma ideia mais clara, pense nas prováveis e inúmeras consequências de um golpe recebido com objeto contundente ou no corte proporcionado por uma pequena lâmina... 


O praticante de Kali, “kalipi” [como alguns gostam de chamar], “eskirmador”, ou “arnisador”, aprende a se proteger contra a ação de armas diversas, inclusive em ataques feitos por mais de um oponente. Pode-se argumentar que as demais artes marciais também contam com aprendizado nas armas, porém tal argumento cede em face de três motivos práticos e filosóficos: 

1) nas demais artes, como as chinesas e japonesas, as armas são bastantes específicas, típicas da herança cultural das mesmas e, no mais das vezes, seu aprendizado se dá quando o aluno já alcançou considerável grau de evolução na arte e está pronto para mais aperfeiçoamento. Assim, é distante ou remota a efetiva possibilidade do estudante manter seu foco prioritário nas armas, como recursos de sua arte para a vida comum;

2) na maioria dos casos, devido às características do próprio armamento [das artes mais conhecidas], seu uso é impraticável. Afinal, ninguém sai por aí levando consigo uma lança, uma espada de samurai ou um bastão longo [e nem se pode esperar encontrar uma arma dessas em caso de necessidade];

3) a filosofia geral das artes marciais mais populares gira em torno das técnicas de mãos vazias, contemplando aspectos muito salutares da vida, como os  esportivos e os terapêuticos. Esses aspectos, porém, se apresentam cada vez mais distanciados das possibilidades de aplicação do conhecimento marcial em seu sentido fundamental, tanto que, na maioria delas, para quem deseja   “saber se defender”, são ensinados de maneira diversificada, conjuntos selecionados de técnicas a título de “defesa pessoal”. O mesmo se dá no contexto esportivo de muitas artes marciais, exercitando-se o estudante quase que exclusivamente em técnicas admitidas nas diversas competições.

No Kali, razões de ordem prática, muito comprometidas com a finalidade primordial das artes de combate, explicam a ênfase no estudo e treinamento com armas, que reside sobretudo na filosofia de que, no centro das necessidades individuais, está a de sobreviver, o que implica em livrar-se de maneira eficaz, efetiva e rápida. Por isso, todo o corpo de ensinamentos se volta para formar pessoas equilibradas, centradas, confiantes e hábeis, caso se vejam  necessitadas de enfrentar conflitos reais. Uma bela característica  acaba surgindo desse aprendizado, qual seja a íntima cultura da verdadeira paz, que nasce no estudante, cujo discernimento se amplia e vai se tornando cada vez mais concretamente consciente e seguro com relação a si mesmo e aos semelhantes, desenvolvendo em si equilíbrio emocional, humildade, tolerância. Enfim, maturidade interior, de quem valoriza profundamente a vida e sabe vivê-la cada vez mais sem medo e sem a ansiedade tão presentes na vida moderna. As Artes Marciais Filipinas constroem o espírito “guerreiro” e, por isso mesmo, edificam o espírito de paz e harmonia, pois o verdadeiro guerreiro é quem melhor conhece o valor da paz.

Embora haja muita diversidade de entendimentos na questão do que se convencionou chamar de “defesa pessoal”, nossa postura é de que é desnecessário e mesmo inconveniente destacar de uma arte marcial um conjunto de técnicas e propô-las como sendo de “defesa pessoal”, pois toda a arte é voltada, em sua origem, para defesa, no mais amplo sentido do termo. Afinal, em última análise, defesa pessoal propriamente dita é ação, medida e contramedida racionalmente aplicada - se for o caso - diante de um perigo. Ao praticante cabe determinar o alcance, a extensão e a profundidade dessas medidas e contramedidas, consciente de que poderá  sofrer danos sérios ou letais, se vier a subestimar o perigo, ou ver-se obrigado a responder pelos excessos que possa vir a cometer em defesa própria ou de terceiros. Voltaremos a tratar deste tema em ensaio futuro, quando empreenderemos  a análise e discussão dos aspectos legais da prática e aplicação do Kali em contextos diversos. 

Como andamos falando muito em armas, a pergunta seguinte provavelmente é: Mas que armas são essas? É o que veremos na próxima postagem...

R.Teixeira

Leia também, clicando nos links abaixo:

Parte I - Introdução

Parte II - Como surgiram as FMA
Parte IV - As armas do Kali
Parte V - Com as mãos vazias
Parte VI - Quem pode praticar Kali
Parte VII - O Kali diante do mundo

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